Seguir a família ou a vocação?

Por Melissa Diniz

Em ano de vestibular e Enem, uma difícil questão preocupa muitos jovens brasileiros: seguir a vocação pessoal ou a carreira imposta pelos pais? É o caso de Gabriel Martins, 17, estudante do terceiro ano do Ensino Médio. Seu desejo real é prestar vestibular para Desenho Industrial e assim desenvolver sua potencialidade artística, transformando o talento para modelagem e ilustração em uma ferramenta útil para sua futura profissão.

Mas seu pai, que é empresário, deseja para ele outra carreira: administrador de empresas. “Entendo que meu pai se preocupa com a questão financeira; ele acha que a profissão de designer não traz estabilidade e não possibilita grandes salários, ao contrário do que costuma acontecer na área empresarial. No entanto, eu, sinceramente, não me vejo cursando Administração, já que detesto matemática”, explica.

Qual seria então a melhor decisão? Segundo a psicóloga Priscilla de Sá, membro da Sociedade Brasileira de Coaching, ao contrário do que muita gente pensa, não existe carreira com retorno financeiro menor. O que existe são profissionais ruins. “Para os excelentes, sempre há mercado. E isso vale tanto para mecânicos de automóveis como para engenheiros. O que os pais devem ter em mente é que se o jovem escolher uma profissão levando em conta, exclusivamente, as tendências de mercado, também correrá risco, pois as tendências mudam”, afirma.

Nesse sentido, não só a família como também a escola pode ter um papel fundamental. “Ambas podem ajudar o adolescente a buscar orientação e informações, a descobrir suas aptidões, a facilitar seu contato com profissionais das áreas de interesse e a promover visitas a locais onde se desenvolve aquela atividade e encontros com pessoas que conhecem determinada carreira”, afirma a psicoterapeuta Sâmara Jorge.

Na opinião da especialista, é muito importante que, ao escolher a profissão, o jovem tenha em mente o projeto de vida que almeja. “O estudante deve tentar descobrir o que é mais importante para ele. Quer ganhar muito dinheiro? Quer trabalhar em grandes centros urbanos? Pensa em ter mais satisfação e qualidade de vida? Ao descobrir o que é mais relevante para si mesmo, estará mais perto de fazer a escolha certa”, afirma.

Para Priscilla, dificilmente se alcança a excelência e a realização plena em uma profissão que não esteja alinhada aos nossos valores individuais mais profundos. Todos esses fatores podem ser levantados, por exemplo, em debates e palestras realizados pelas escolas, que devem ser dirigidos, inclusive, aos pais dos alunos.
A psicóloga e coach acredita que a família pode ajudar muito os adolescentes nesse momento difícil. “Quando se tem um parente bem-sucedido profissional e pessoalmente, ele poderá ser um modelo inspirador para o jovem e, nesse sentido, influenciá-lo positivamente a seguir determinado caminho”, explica. Outro tipo de atitude positiva, aponta, é perceber as inclinações naturais da criança e fomentar seus talentos e interesses com informações e desafios.

No entanto, explica Sâmara, a interferência direta dos pais, com a intenção de impor uma ideia, dirigir e controlar as escolhas dos filhos, é uma atitude bastante prejudicial, pois dificulta que o jovem entre em contato com o que realmente tem vontade. “Esse momento de escolha da carreira é muito delicado. A preocupação dos pais com o retorno financeiro é legítima, pois a ideia é que, ao se formar, o filho seja capaz de conquistar independência financeira. Mas esse não pode ser o fato mais importante na hora da escolha”, avalia Sâmara.

Para Katia Horpaczky, psicóloga clínica e organizacional e psicoterapeuta familiar, muitos jovens seguem o caminho imposto ou já trilhado pelos pais por comodismo ou por não saber mesmo o que querem fazer. “O risco de tomar uma decisão equivocada é manifestar uma futura rebeldia, se tornar infeliz e frustrado, agressivo ou até mesmo depressivo e indiferente em relação à carreira”, explica.

Katia recomenda que, em caso de grandes dúvidas, o aluno procure um psicólogo para fazer uma orientação vocacional. Esse tipo de recomendação também pode ser feito pela escola. “A orientação é muito útil e não se resume à aplicação de testes, envolve todo um processo de autoconhecimento, conscientização, orientação e discussão com os pais”.

A especialista também lembra que, diante de tantas mudanças ocorridas em nossa sociedade, as profissões já não têm o mesmo perfil que tinham 10 ou 20 anos atrás. “Podemos dizer que deixamos cada vez mais a estrutura corporativa estabelecida hierarquicamente. Hoje, as empresas buscam funcionários com um poder maior de decisão. Portanto, a criatividade é um elemento fundamental no desempenho de qualquer função”, ressalta.

De qualquer forma, não existe caminho sem volta. “É importante ter em mente que todos nós temos o direito de mudar de opinião. Especialmente em questões que definirão nosso futuro e o caminho que escolhemos trilhar”, afirma Sâmara.

FONTE: http://www.modernaplus.com.br/main.jsp?lumPageId=4028808125B76BC80125B7FC8A8C34B2&lumI=Moderna.EnemVestibular.detEnemVestibular&itemId=3BBD918A298AEDA30129A3ED6DB61092

One response to this post.

  1. Olá!
    Sou Priscilla de Sá, psicóloga e coach citada nesta reportagem. Parabéns pelo trabalho junto aos jovens e suas famílias. Boa sorte a todos que irão fazer o ENEM amanhã!

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